
Poema de Álvaro de Campos
Cruzou por mim,veio ter comigo,numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido,pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente,num gesto largo,transbordante,dei-lhe tudo quanto tinha
(Exceto,naturalmente,o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo,aplicado,
E romantismo,sim,mas devagar...).
Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim,eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
E'estar ao lado da escala social,
E'não ser adaptável às normas da vida,
'As normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo,empregado certo,prostituta,
Não ser pobre a valer,operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça,ou capitão de cavalaria,
Não ser,enfim,aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lagrimas,
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.
Não:tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-se com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se ha uma razão exterior a ela?
Sim,ser vadio e pedinte,como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte,o que é corrente:
E'ser isolado na alma,e isso é que é ser vadio,
E'ter que pedir aos dias que passem,e nos deixem,e isso é que é ser pedinte.
Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.
E,mesmo que isso aconteça,isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.
Sou vadio e pedinte a valer,isto é,no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.
Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida!Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele,enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele,que com lagrimas (autenticas)nos olhos,
Deu hoje,num gesto largo,liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha,na algibeira em que tinha olhos tristes por profissão
Escrito por Tânia Rodrigues às 14h38
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O POETA E OS GIRASSÓIS
(Ao poeta Lindolf Bell – 1938-1998)
Tânia Rodrigues
O corpo do poeta dorme
na Timbó de campos semeados
(os girassóis altivos
ainda buscam a luz do sol)
O canto do poeta ecoa
no vale do Xockleng oprimido
(os girassóis altivos ainda
inspiram versos de esperança)
O amor do poeta grita
às margens do Itajaí-Açu
que pede passagem
(os girassóis altivos ainda
teimam em florescer no
coração das cidades concretas)
O sonho do poeta sustenta
sobre a terra úmida, aquecida e imensa
o sonho de vários homens
vários pássaros
vários peixes
(os girassóis altivos
renascem na dor absoluta)
O riso do poeta se espalha
feito semente nas colinas
e tocadores de bandoneons celebram
o brilho das manhãs ensolaradas
(os girassóis altivos não vivem
de beleza, mas têm dignidade)
O destino do poeta, vago feito
querubim, seduz a mãe que embala
o filho, sabedora de horizontes
(os girassóis altivos ainda se
curvam, mas apenas para o céu)
Escrito por Tânia Rodrigues às 14h16
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Do verbo almodovar
tenho a perna nos tornozelos, olhos vidrados
no chão
chove sobre a nuvem da poeira
que teimou um dia levantar vôo
alçar pássaros
folhas
e se deixar levar sobre os canteiros
tenho as mãos sobre a imensidão do nada
céu
mar
azul verde abacate
alicate trago no olho direito que é pra te arrancar de mim
a mancha
o grude
o suor e o sangue na carne trêmula
almodovar, ar, ar
rimarei
meu desejo de beleza singela
com teu jeito cruel de cactus
Tânia Rodrigues
Abril 2008
Escrito por Tânia Rodrigues às 14h08
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